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domingo, 8 de março de 2020

8 de março, dia internacional da mulher BRANCA - UMA REFLEXÃO


Conta-se que no dia 8 de março de 1857, data que marca o dito dia internacional da mulher, um grupo de operárias fizeram uma greve em NY e, pra resumo da ópera, sofreram repressões e algumas morreram.

Acontece que em 8 de março de 1857, eu ainda era uma escravizada. (Só pra lembrar, a abolição nos EUA foi em 1863. No brasil 1888). Isso significa que nossas irmãs estavam sendo vendidas como um pedaço de qualquer coisa. Provavelmente escravas das famílias de muitas dessas mulheres brancas grevistas super revolucionárias.

Como eu sempre digo, as mulheres brancas tem lá seus problemas, mas nenhum é mais grave que o nosso: nós temos um povo inteiro a reerguer em absolutamente TODOS os aspectos. Falam tanto de emancipação, podem resolver seus problemas sozinhas, não é mesmo? Já estão crescidinhas.

Por isso, já vou avisando com antecedência: não me deem feliz dia da mulher, se não eu vou achar que você é um/a deslocado/a que não conhece sua história (em alguns momentos é necessário falar duro mesmo, mas tem afeto nessa rispidez). Meu dia é 31 de Julho, Dia da Mulher Africana.

Em memória de todas aquelas que pereceram, o mínimo que a gente pode fazer é conhecer e honrar nossa história, não caindo em qualquer caô europeu e eurodescendente. 
Nossa referência principal, primordial e primeira é e deve ser África, no continente ou na diáspora. Nós devemos isso a quem perdeu a vida para hoje estarmos aqui.

Texto: Anin Urasse

Dia Internacional da Mulher: o movimento do ponto de vista de mulheres negras

As mulheres negras têm liderado muitas estatísticas no Brasil, mas nenhuma delas é de fazer nossa sociedade se orgulhar. No mercado de trabalho, representam o desemprego, como 16,6%, na comparação com homens brancos, que estão na casa dos 8,3%, segundo levantamento feito pelo economista Cosmo Donato, da LCA consultores – com base na média dos últimos quatro trimestres da PNAD contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Por Karol Gomes, Do Hypeness
Ilustração de 4 mulheres negras juntas
Arte: @designativista
Da mesma forma, mulheres negras têm um rendimento médio real menor que a metade da renda do homem branco. Acima delas também estão os homens negros e em seguida as brancas. Se apenas a questão de oportunidades fosse um problema a ser resolvido pela vivência das mulheres negras, já seria uma pauta grande o suficiente. Mas quando olhamos para o Mapa da Violência, encontramos outros dados alarmantes: enquanto o feminicídio de mulheres negras experimentou um crescimento de 54,2% entre 2003 e 2013, no mesmo período, o homicídio de mulheres brancas caiu 9,8%.
Quando não precisa se defender, a mulher negra tem que defender os seus: também de acordo com o Mapa da Violência, dos cerca de 30 mil jovens entre 15 e 29 anos assassinados por ano no Brasil, 93% são homens e 77% são negros. Como diria a escritora Audre Lorde, “não serei livre enquanto alguma mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas”.
Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, é difícil imaginar um movimento que não paute as questões das mulheres negras como urgentes ou que queira unificar a terminologia ‘mulher‘, sem considerar diversos recortes. O nome disso é interseccionalidade e ela é muito necessária ao feminismo.
Pensando nisso, o Hypeness reuniu depoimentos de mulheres negras sobre suas experiências pessoais com a data comemorativa e elas falaram também sobre o que esperam como um movimento coletivo. Confira:
“Quando falamos de ‘mulheres’, ainda vem uma imagem de um certo tipo de pessoa no subconsciente do coletivo”
“O dia 8 de março é uma data que deveria englobar todas as pautas de todas as mulheres. Mas a gente sabe que, infelizmente, não é assim que funciona. Quando falamos de ‘mulheres’, ainda vem uma imagem de um certo tipo de pessoa no subconsciente do coletivo, da sociedade, e essa mulher geralmente não é uma mulher negra. Uma vez que a gente ainda tenha que discutir sobre coisas básicas, como equidade salarial no mercado de trabalho, por exemplo, essa data tem sido bem utilizada para colocar luz em tais questões ainda não resolvidas. O 8 de março é também um momento de comemorarmos nossa existência, comemorar que estamos vivas, apesar do feminicídio e outras opressões que a gente vive. Mas sem deixar de lembrar que a gente ainda tem muita coisa para alcançar e que todo mundo faz parte da luta por esses direitos, principalmente para mulheres dentro de outros grupos considerados minorizados, que enfrentam problemas que mulheres brancas, hoje, não enfrentam.”
Joyce Prestes, estrategista de conteúdo no Google, pesquisadora de gênero e raça e co-fundadora da Monde Social
“O dia 8 de março ainda contempla um padrão cis gênero”
“O dia 8 de março ainda contempla um padrão cis gênero, até porque nós mulheres trans sofremos muito ainda com a deslegitimação do nosso ser e vejo que ainda tem muito a melhorar sobre a pluralidade do ser feminino. Ao longo do tempo fomos descobrindo novas formas de feminilidade e ressignificando muitas das regras às quais nos foram impostas enquanto mulheres no plural mas ainda vejo necessidades de pautar especificamente mulheres negras e mulheres trans. Está é uma data comemorativa que não tem me atravessado durante muito tempo. Por ser trans, vejo que o recorte é outro, há quem me parabenize no dia, mas, diariamente preciso provar a minha feminilidade para a sociedade. Então esse dia é mais um dentre muitos outros – ou ainda ousaria dizer que, al invés de flores, esse dia nos traz mais dor, por não contemplar os corpos e existências trans.”

“A mulher preta tem um trajetória de vida muito diferente da mulher branca”

“Me sinto representada, mas não o suficiente enquanto mulher preta e lésbica. Isso porque, a partir do meu contato com o Feminismo Negro, comecei a enxergar que minhas pautas de raça não recebem o peso que deveriam, assim como as pautas de mulher lésbica e de mulher que nasceu na periferia. A mulher preta tem um trajetória de vida muito diferente da mulher branca, então quando nos unimos para lutar em prol de causas por nós, precisamos entender e validar essa pluralidade de existências. E o feminismo em sua raiz veio a partir de um olhar elitista e branco. As pautas das mulheres brancas não abrangem todas as pautas da mulher preta, da mulher periférica, da mulher trans, da mulher lésbica.”

“Minhas demandas ao mesmo completamente diferentes”

“Eu me sinto representada sim entre as mulheres, mas não por todas as mulheres. Muitas têm acesso à informação e ainda assim acabam por me tratar com desrespeito por eu ser uma pessoa trans. O 8 de março também é o meu dia pois sou mulher e luto diariamente dentro dos meus recortes, mas não sei se preciso me sentir inclusa no movimento como um todo. Muitas vezes é como se eu não fosse incluída naquele grito, naquela classe. Sou vista como algo diferente do que é considerado convencional e minhas demandas ao mesmo completamente diferentes.”

“Existe um ponto de especificidade muito grande no ser mulher negra nesse Brasil”

“Mulheres negras são a antítese da antítese. No movimento de mulheres, não têm todas as suas pautas contempladas justamente por serem negras e no movimento negro, não têm todas as suas pautas. Existe um ponto de especificidade muito grande no ser mulher negra nesse Brasil que talvez somente o 8 de março não cubra. Mas também, ao pensarmos na data como um dia de celebrar a multiplicidade de existências como um ato político que rememora, nos encontramos: a data nasce do sofrimento de mulheres da classe trabalhadora, algo que caminha com a realidade das mulheres negras.”

“O 8 de março ganhou uma nova conotação em Salvador”

“Aqui na Bahia as movimentações do 8 de março eram muito influenciadas por partidos e sindicatos, com uma caminhada, normalmente organizada em todos os estados, mas muito institucional. Para se afastar desse formato engessado, mulheres começaram a se unir espontaneamente, negras, jovens, gordas, da classe trabalhadora e outros recortes, para liderarem sua própria manifestação. Em 2017 criamos o ato político, na praça da piedade em Salvador, e para nossa surpresa, o que seria apenas um ato político, se transformou em um grande movimento – isso virou a caminhada ‘Na Contramão da História’, em que descemos, literalmente na contramão, a ladeira do Elevador Lacerda. Desde então, o 8 de março ganhou uma nova conotação em Salvador, que está influenciando todo o estado da Bahia. Estamos ressignificando uma bandeira de luta e agregar diversas pautas, quando conseguimos dialogar, dentro do 8 de março, a vulnerabilidade das mulheres negras.”

“Em um país onde o feminicídio é uma pauta constante, é mais do que necessário pensar essa data como um dia político também”

“Ser uma travesti preta da periferia me coloca em várias caixas e infelizmente ainda existem muitas mulheres cisgeneras que são transfóbicas. Acredito que essas datas são importantes para pensarmos o que significa ser mulher e qual a importância de respeitarmos e ouvirmos todas as realidades plurais que envolva a construção de nossa mulheridade/travestilidade. Em um país onde o feminicídio é uma pauta constante, é mais do que necessário pensar essa data como um dia político também.”

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Por que a capoeira é a "arte-mãe" da cultura brasileira e da identidade nacional

A capoeira ajudou a moldar o samba e até o futebol do país, defende pesquisador, que chama atenção também para as “dívidas não pagas” para com os povos responsáveis por trazer essa linguagem ao Brasil

"Negros Lutando" (1824), de August Earle, é considerada a primeira referência iconográfica da prática no BrasilWikicommons / Reprodução

Por Henrique Mann
Músico, historiógrafo e mestre em Artes Marciais

Duas das principais referências que o mundo tem do Brasil são a música e o futebol. Embora pouco se diga, a capoeira está na raiz de ambas. Esse caldeirão cultural fervilhante de ginga e sons espalha-se por todo o planeta, é visível nas ruas, nos shows, nos estádios, mas, mesmo no nosso país, não é completamente compreendido. É uma história complexa, perdida nos escaninhos da tortuosa memória brasileira que por séculos tentou sonegar a devida importância de suas origens básicas africanas ou indígenas, e os reflexos desse conflito identitário permanecem até os dias atuais.

A partir de 1532, milhões de africanos foram arrancados de suas nações e trazidos para o Brasil, dando início ao maior processo de migração forçada da história. Ao longo dos séculos, os escravizados deixaram impressas suas marcas na cultura brasileira. Uma das mais importantes e influentes dessas raízes foi a capoeira.

A origem da palavra é do tupi: ka’a (“mato”) e pûera (“que foi”). Embora seja controvertida a razão da utilização do termo, a tese mais aceita é de que a vegetação derrubada ao redor das fazendas favorecia a fuga dos escravos, pois, se tentassem fugir pela mata fechada, ficariam embrenhados no cipoal. Seja como for, as primeiras referências a uma forma de luta própria dos escravos remontam ao Quilombo de Palmares e vieram dos soldados portugueses (“Dragões”) que relataram, por volta de 1690, ser necessário “mais de um Dragão” para capturar um negro desarmado, pois estes defendiam-se com uma “estranha técnica de esquivas e pontapés”. Por isso o Quilombo de Palmares é apontado como um dos prováveis berços da capoeira, o que é questionável (há sérios estudos que apontam para Sergipe como matriz); mas sabe-se, com certeza, de sua origem no antigo ritual N’Golo, ou “Dança das Zebras”, praticada na África Austral, atual território de Angola, onde os jovens formavam rodas e disputavam um misto de luta e dança com base na observação das disputas das zebras machos pelas fêmeas, com coices e cabeçadas.

As primeiras imagens que se têm, porém, são completamente reveladoras. Em 1824, o inglês August Earle pintou Negros Lutando e, em 1835, o germânico Johann Moritz Rugendas registrou a cena definitiva no quadro Roda de Capoeira, no qual veem-se claramente os rudimentos da técnica da luta e o uso de instrumentos musicais acompanhados de palmas.
"Roda de Capoeira" (1835), de Johann Moritz RugendasWikimedia Commons / Reprodução

As rodas de capoeira eram praticadas com música não apenas por sua origem na antiga dança das zebras. Os donos de escravos permitiam que dançassem para evitar que ficassem deprimidos (banzo), e ali eles aproveitavam para treinar luta. Dentre os toques mais antigos de berimbau há um, por exemplo, chamado “cavalaria” que avisava da aproximação do feitor e outros vigilantes – nesse momento, as mulheres abriam suas saias como asas para impedir a visão do que ocorria e os capoeiristas passavam a dançarinos. Puxavam as mulheres para o centro da roda e seguiam em danças de umbigadas, escapando dos castigos por serem flagrados praticando técnicas de combate.

Foi provavelmente dessas rodas que nasceu o chamado “samba do Recôncavo baiano”. Das percussões e cantorias que acompanhavam a capoeira consolidou-se o principal tronco musical brasileiro, do qual derivaram o samba e o coco. Aliás, a música de capoeira, que os brancos incluíam no que chamavam genericamente de “batuques”, antecede o chorinho em 50 anos e o samba em quase um século.

A música de capoeira, que os brancos incluíam no que chamavam genericamente de 'batuques', antecede o chorinho em 50 anos e o samba em quase um século.

Não à toa, Vinícius de Moraes cantava que “o samba nasceu lá na Bahia, e se hoje ele é branco na poesia, é negro demais no coração”. Foi ao ter contato com esse universo que ele e o violonista Baden Powell criaram a célebre série dos “afro-sambas”. Mas, muito antes, essa cultura já havia sido transposta para os morros do Rio de Janeiro, em um movimento conhecido como Pequena África. No início do século 19, era prática corrente encontros musicais nas casas das “tias” baianas Yalorixás. A mais conhecida foi Hilária de Almeida, a Tia Ciata, até hoje uma referência sobre o surgimento do maxixe, logo samba. Na casa dela gerou-se o primeiro samba registrado em disco, Pelo Telefone (1917), com autoria assumida por Ernesto dos Santos (Donga), sobre o que ainda restam controvérsias – cogita-se que tenha sido obra coletiva e de “roda”.

Ao largo desse debate autoral, fica evidente a matriz transposta da Bahia para a Pequena África no Rio de Janeiro e da Grande África para o Brasil ao longo de séculos.

Verdades não reconhecidas
Cândido da Fonseca Galvão (Dom Obá II)Reprodução / Reprodução

Na Guerra do Paraguai (1864-1870), o Império Brasileiro constituiu a Companhia de Zuavos da Bahia, pelotões formados por negros dentre os quais destacou-se Cândido da Fonseca Galvão (Dom Obá II), natural de Lençóis da Bahia e descendente de reis africanos. Esses foram decisivos na guerra por seu destemor e capacidade de combate, especialmente na Batalha de Tuiuti e na Retomada de Uruguaiana (RS). Eram quase todos capoeiras. Foram elogiados pelo Conde d’Eu (Gastão de Orleans) como a “mais linda tropa do Brasil”, pelo “capricho com suas indumentárias”. Receberam a promessa de liberdade e equiparação aos demais soldados ao final da guerra.

Foram traídos. A tropa foi desmobilizada e desarmada. Grande parte deles morreu à míngua. Dom Obá ainda obteve algum reconhecimento recebendo posto “honorário” de oficial. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde era amado pelos pretos, foi recebido por Dom Pedro II, teve ação destacada como abolicionista, mas era tratado pela “boa sociedade” (branca) como personagem caricato, “amalucado” e “extravagante”, um “excêntrico contador de histórias legendárias” de “nobres africanos” e “pretos heróis de guerra”, feitos risíveis e inverossímeis aos olhos da Corte. Na República, foi cassado seu título militar. Antes disso, ao final da guerra, vários Zuavos foram presos por prática de “capoeiragem”, considerados “vagabundos”, marginalizados. Só uma vez foram homenageados com o nome de uma rua em Salvador, ao lado do Fórum, mas depois aquele nome foi substituído pelo atual, Rua Tinguí.

Não encontrei nenhuma outra homenagem oficial à Companhia de Zuavos. Mas, ao policial Miguel Nunes Vidigal, sim, ainda que às avessas. Ele dá nome ao atual bairro do Vidigal, no Rio de Janeiro. Notabilizou-se por torturar e assassinar praticantes de candomblé e capoeira. Era um exímio capoeirista, porém, a mando do Império, sua função era exterminar os representantes da “arte-mãe”. Os mestres por ele capturados, antes de serem assassinados, sofriam longas sessões de tortura chamadas Ceia dos Camarões, nas quais açoitava e despejava óleo fervente sobre suas vítimas.

Miguel Nunes Vidigal, que dá nome ao atual bairro do Vidigal, no Rio de Janeiro, notabilizou-se por torturar e assassinar praticantes de candomblé e capoeira.

Já na República, a capoeira foi criminalizada a 11 de outubro de 1890 (Decreto 847) e assim permaneceu até 1937. Em 2014, foi reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, mas ainda prossegue submersa na falta de reconhecimento de sua ancestralidade para a cultura brasileira. Neste ínterim, viveram e morreram muitos lutadores, guerreiros e criadores, como Besouro, Pastinha e Bimba. 

Os mestres prosseguidores dessa construção histórica, digna dos mais profundos estudos, têm agora melhores condições de trabalho no Exterior do que no Brasil. Mas o que tange mais fortemente a este artigo é a música. E a pergunta que não quer calar é: quando será reconhecido o valor basilar da capoeira para a construção da identidade musical brasileira? Isso apenas para citar esta parte, porque, sobre os Zuavos, que morreram pelo Brasil na Guerra do Paraguai, ou os negros, que morrem sob açoite para a construção da nação, já ultrapassa qualquer marco civilizatório possível.
Ananílson de Souza (Mestre Monsueto)Banco de Dados / Banco de Dados

Sinto-me à vontade para falar sobre esses temas porque a prática de música e de artes marciais estão presentes na minha vida desde sempre. Comecei no judô e no boxe ainda na adolescência, mas, em 1978, conheci o mestre Monsueto (Ananílson de Souza), professor de karatê e mestre de capoeira. Passei a praticar com ele e, em 1981, fundamos em sociedade a Academia Okinawa, em Santa Catarina. Assim mergulhei no universo da capoeira e tive acesso a grandes mestres da “arte-mãe”. Mas eu era, já, um músico profissional. Percebia claramente o quanto eram bons os percussionistas e cantores capoeiristas. O Mestre Monsueto, cujo apelido vinha justamente de ter voz semelhante à do famoso cantor homônimo, era ótimo na percussão, um dos mais completos músicos de capoeira que conheci. Tornou-se meu parceiro não só no mundo das lutas, mas também tocava comigo em shows. Através dele conheci outro gigante da capoeira: o mestre Nino Alves.
Nino Alves (Mestre Nino)Aranha / Divulgação

Exímio executante do gênero, cantor e instrumentista, Mestre Nino é autor de um CD seminal chamado Tchê Capoeira. Isso é fundamental para o entendimento de tudo o que aqui foi dito, desde o início. O Mestre Monsueto, já falecido, era carioca, negro, e orgulhava-se muitíssimo disso. Era também faixa preta de um dos estilos mais complexos do karatê: o Goju Ryu, no qual foi graduado pelo Grão Mestre japonês Akira Tanigushi. Já o Mestre Nino, mais jovem do que Monsueto, é um “homem branco”, gaúcho, oriundo do judô e professor de Full Contact, mas extremamente ligado à cultura africana inclusive pela música, o samba e manifestações culturais diversas. Tornou-se tricampeão brasileiro dos pesos pesados de capoeira. Em 1983, fundou a Barravento no Rio Grande do Sul, uma “linhagem” e “escola” da capoeira mais voltada para o combate e para a luta do que para a parte acrobática, criada em 1973 pelos mestres Bogado e Paulão, no Rio de Janeiro. Da mesma escola vem o Mestre Torpedo, fundador da Barravento no Espírito Santo.
Henrique MannArquivo pessoal / Arquivo pessoal

Minha construção como praticante de capoeira iniciou-se com o Mestre Monsueto e concluiu-se com os mestres Torpedo e Nino Alves. Assim, aprendi o significado de tudo isso para a cultura do Brasil. Hoje sou mestre em Kickboxing (faixa preta 4º Dan), graduado em várias outras artes marciais, mas meu cordel amarelo-azul da Capoeira Barravento me é muitíssimo precioso. Ele sopra sons aos meus ouvidos. É dele que emana uma das vertentes mais fortes do meu conhecimento musical e a razão principal de orgulhar-me de ser brasileiro, músico e artista marcial.

A pergunta que não quer calar é: quando será reconhecido o valor basilar da capoeira para a construção da identidade musical brasileira?

E aqui devo destacar: a capoeira é a única forma de luta do mundo regida por compassos musicais! Assim descobri minha própria identidade. Entendi que, mesmo tendo pele clara, sendo sulista, praticante de artes marciais orientais ou americanas, sou genuinamente brasileiro, que tenho raízes culturais africanas e sinto imenso orgulho delas!

Se hoje sou músico profissional e mestre em artes marciais, devo muitíssimo aos povos arrancados da África desde 1532. E é por isso que não sou branco, nem preto, nem sulista e nem nordestino; sou o retrato do meu país, policultural e multiétnico. Por maiores dificuldades pelas quais possa passar meu povo ao longo dos séculos, serei sempre e acima de tudo brasileiro. Como disse o poeta e compositor Vinícius de Moraes, chamado também de o “branco mais negro do Brasil”:

– Quem é homem de bem não trai. (...) Capoeira que é bom não cai, mas se um dia ele cai, cai bem!

Ouça Tchê Capoeira, do Mestre Nino: https://youtu.be/p3vgv1UtnbM

Em Defesa da Revolução Africana - Livro de Fanz Fanon


Importante livro sobre a Revolução Africana, por Fanz Fanon.



sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Gingando Pela Paz no Haiti



Essa foto está rodando o mundo! Mas, você sabe qual é a sua história?

Durante um aula em nosso núcleo em Porto-Príncipe, no Haiti, um aluno nos surpreendeu trazendo um berimbau confeccionado por ele. Reunindo um pedaço de madeira, uma lata de massa de tomate, um arame e um fino galho de árvore ele construiu o seu arco musical.

E a surpresa maior veio quando ele pegou o seu berimbau e tocou a Iúna, um toque realizado para o jogo de mestres e formados ou para homenageá-los. Conhecimento que foi adquirido naturalmente, através do olhar e da escuta.

Pela sua iniciativa e criatividade, o menino ganhou o apelido de Artesão.

A sua iniciativa se tornou um exemplo, inspirando outros alunos e alunas a confeccionarem os seus próprios berimbaus e se dedicarem ao aprendizado com ainda mais afinco.

A história real comprova o potencial da Capoeira para criar espaços fecundos onde a criança encontra liberdade para criar e desenvolver as suas potencialidades.

E vamos Gingando pela Paz!

Após 200 anos, Joaquim Pinto de Oliveira, escravizado durante o século XVIII, é reconhecido como arquiteto da Catedral da Sé



Joaquim Pinto de Oliveira, conhecido como Tebas, foi responsável pela reforma da antiga Catedral da Sé, demolida em 1911, e de outras obras emblemáticas da arquitetura paulistana. Quando jovem, ele foi escravizado por Bento de Oliveira Lima, que morreu antes da conclusão da reforma da antiga Catedral da Sé. Endividada, a família do mestre de obras vendeu Tebas para a Igreja. Tempos depois, ele processou a viúva de Lima, ganhou a causa e conquistou sua alforria aos 58 anos, mas seguiu trabalhando como arquiteto até o fim da vida.

Tebas havia nascido em Santos. Com grande talento na arte da cantaria, que consistia em talhar pedras para serem usadas em construções, ele foi responsável pelo primeiro chafariz público da capital paulista, localizado onde hoje existe a rua Direita. Desde 1886, a peça não se encontra mais no local, tendo sido retirada após o processo de canalização de água.

Apenas em 2018, ele teria sido reconhecido como arquiteto pelo Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo (Sasp). Falecido em 1811, aos 90 anos, sua história é resgatada pelo livro “Tebas: Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata“, lançado em 2019 pelo jornalista Abilio Ferreira.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

CALENDÁRIO NEGRO - JANEIRO


1 – Dia consagrado ao orixá Oxalá
1 – Independência do Haiti (1804)
1 – Lincoln assina a Proclamação de Emancipação abolindo a escravatura nos Estados Unidos (1863)
1 – Primeira libertação coletiva de escravos no Brasil, na Vila de Acarapé, hoje Redenção, Estado do Ceará (1883)
1 – Nasce em Niterói, (RJ), o músico e compositor José Paulo Silva (1892)
1 – Independência do Sudão (1957)
1 – O ganês Kofi Annan assume o cargo de Secretário-Geral da ONU (1997)

2 – Fundação em São Paulo (SP), da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos (1711)

3 – Fundação em Porto Alegre (RS), da União dos Homens de Cor (1943)

4 – Realiza-se em Brasília (DF), o I Encontro das Religiosas da Assunção Negra (1991)
4 – Nasce em Belém/PA, Cléa Simões, atriz que se tornou conhecida a partir do seu trabalho na novela O direito de nascer, de 1978 (1927)
4 – Nasce em Belém/PA, Norton Gândia Nascimento, o ator, produtor e apresentador Norton Nascimento (1962)

5 – Nasce em Trajano de Moraes/RJ, Carmelita Madriaga, a cantora Carmem Costa (1920)
5 – Nasce Enedina Alves Marques, primeira mulher negra a se formar engenheira civil no Brasil (1913)
5 – A Lei n. 7.716, denominada Lei Caó define os crimes resultantes de preconceitos de raça ou de cor (1989)

6 – Circula pela primeira vez o jornal O Clarim da Alvorada, organizado por José Correia Leite e Jayme de Aguiar (1924)
6 – Dia consagrado a São Baltazar, um dos três reis magos que levaram oferendas para Jesus
6 – Nasce em Salvador (BA), Juliano Moreira, médico psiquiatra considerado pai da psiquiatria brasileira (1873)
6 – Fundação no Rio de Janeiro do Rancho Rei de Ouro, organizado por Hilário Jovino Ferreira (1893)
6 – Nasce no Rio de Janeiro, o compositor José Gonçalves - Zé com Fome ou Zé da Zilda, autor entre outros sucessos de "Aos Pés da Cruz" e "Só pra Chatear" (1908)
6 - Nasce em Salvador/BA, Hilda Dias dos Santos, yalorixá do Ilê Axé Jitolu, desenvolveu importante trabalho sociocultural no bairro da Liberdade, em Salvador, contribuindo de forma decisiva para a fundação do bloco Afro Ilê Aiyê, primeiro bloco afro do Brasil, digirido por seu filhos (1923)

7 – Nasce em Bom Jardim, distrito de Santo Amaro (BA), Teodoro Fernandes Sampaio, o engenheiro, escritor, geógrafo e historiador Teodoro Sampaio (1855)
7 – Nasce no Rio de Janeiro (RJ) Luiz Carlos dos Santos, o cantor e compositor Luís Melodia (1952)

8 – Fundação, na África do Sul, do Congresso Nacional Africano (CNA), partido político criado por um grupo de advogados, jornalistas, professores e líderes negros que se notabilizou na luta contra o apartheid (1912)

9 – O presidente Luís Inácio Lula da Silva promulga a Lei nº 10.639/03, que determina a inclusão de conteúdos relacionados à História e Cultura Afro-brasileiras nos currículos escolares (2003)

10 – Nasce em Tuskegee (EUA), o botânico, inventor, cientista e agrônomo George Washington Carver, chamado pela Revista Time de "Leonardo da Vinci Negro" (1864)

11 – Tem início, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, o 2º Congresso Afro-Brasileiro, que contou com as presenças de Edison de Souza Carneiro (organizador), Martiniano do Bonfim, Camargo Guarnieri e Jorge Amado. O evento foi realizado de 11 a 20 de janeiro (1937)
11 – Nasce em Nova Iorque (EUA) Mary Jane Blige, cantora, compositora e produtora musical, rainha do R&B e Hip Hop estadunidenses (1971)

12 – O escritor Joaquim Maria Machado de Assis, aos 16 anos, publica o seu primeiro texto, a poesia "Ela" (1855)
12 – Nasce em Pernambuco a rainha da ciranda Lia de Itamaracá, patrimônio vivo da cultura pernambucana (1944)

13 – Nasce na cidade de Cachoeira (BA), o engenheiro, professor universitário e abolicionista André Pinto Rebouças - André Rebouças (1838)

14 – Nasce em Bay Shore, Nova Iorque (EUA), James Todd Smith III, o cantor de rap e ator estadunidense LL Cool J (1968)

15 – Nasce em Atlanta, Georgia (EUA), Martin Luther King Jr., Prêmio Nobel da Paz em 1964, por sua luta contra a discriminação racial e os direitos civis nos Estados Unidos (1929)
15 – Na Bahia, o governo suprime a exigência de registro policial para os templos de ritos afro-brasileiros. É o único estado brasileiro a abolir essa exigência (1976)

16 – Nasce na Bahia, o desenhista, gravador e escultor José da Paixão Silva (1938)
16 – Nasce em Ibadan, Nigéria, Helen Folasade Adu, a cantora de jazz Sade Adu (1959)

17 – Nasce em Lousville (EUA) Cassius Marcellus Clay Jr, o campeão de box Muhammed Ali, considerado um dos melhores da história do esporte (1942)
17 – Nasce em Arkebutla, Missouri (EUA), o ator James Earl Jones (1931)

18 – A Federação Latino-Americana e do Caribe de Jornalistas Desportivos elege Joaquim Cruz o melhor atleta latino-americano de 1984 (1985)

19 – Nasce em Boa Esperança, município de Rio Bonito (RJ) Bernardino da Costa Lopes, o poeta B. Lopes ou Bruno (1859)
19 – Nasce no Rio de Janeiro (RJ) Olivério Ferreira, o compositor, cantor e ritmista Xangô da Mangueira (1923)

20 – Dia consagrado ao orixá Oxóssi, no Rio de Janeiro
20 – Nasce em Salvador (BA) Domingos da Rocha Viana, o compositor Domingos Moçuranga (1807)
20 – Nasce em Juiz de Fora (MG) Sebastião Cirino, músico, compositor, autor de "Cristo nasceu na Bahia", entre outras obras (1902)
20 – Nasce no Engenho da Cruz, distrito de Cachoeira (BA), Beatriz Moreira da Costa, a ialorixá Mãe Beata de Iemanjá, escritora, militante negra e social, autora do livro "Caroço de dendê - a sabedoria dos terreiros (1931)
20 – Criada no Rio de Janeiro a Ala de Compositores da Estação Primeira de Mangueira (1939)
20 – Nasce em cachoeira (BA), Mário Gusmão, ator, primeiro negro formado na Escola de Teatro da UFBA, artista que muito contribuiu para a difusão da cultura negra (1928)
20 - Toma posse o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama II, advogado, professor, escritor e político nascido no Havaí. Antes da presidência, Barack Obama tinha sido senador pelo estado do Illinois de 2005 a 2008.

21 - Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, instituído pela Lei 11.635/2007

22 – Nasce em Quintas da Barra, Salvador (BA), Francisca Xavier Queiroz de Jesus, a atriz, produtora e yalorixá Chica Xavier (1936)

23 – Início da luta armada em Guiné-Bissau, primeira colônia portuguesa a se tornar independente (1963)

24 – Tem início em Salvador (BA), a Revolta dos Malês, a insurreição urbana mais importante dos escravos brasileiros, com um saldo de 100 mortos e 281 presos (1835)

25 – Nasce em Maputo, Moçambique, o ex-jogador de futebol, Eusébio da Silva Ferreira, o "Pantera Negra", estrela do Benfica e da Seleção Portuguesa na década de 60 (1942)

26 – Nasce em Birminghan, Alabama (EUA), Angela Yvonne Davis, a ativista feminista, escritora, pesquisadora e professora emérita da Universidade da Califórnia (EUA) Angela Davis. Autora de clássicos do Feminismo Negro, como Mulheres, raça e classe, Mulheres, cultura e política e Blues legacies and Black Feminism (1944)
26 – Realiza-se no Teatro Ginástico, Rio de Janeiro, a primeira apresentação do Teatro Folclórico Brasileiro (1950)

27 – Nasce em Maceió (AL), Djavan Caetano Viana, o cantor e compositor Djavan (1949)

28 – Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo

29 – Nasce no Mississipi (EUA) Orpah Gail Winfrey, a apresentadora de TV e empresária estadunidense Oprah Winfrey (1954)

30 – Nasce no Alasca (EUA) Khaleed Leon Thomas, o ator e rapper Khleo Thomas (1989)

31 – Pressionada pela Casa Branca, a Câmara dos Deputados aprovou a XIII Emenda à Constituição, abolindo a escravidão nos Estados Unidos (1865)
31 – Nascimento de Nzinga, rainha de Angola de 1633 a 1663 (1582)
31 – Nasce no Arkansas (EUA) Roosevelt Sykes, o cantor e pianista norte-americano conhecido como "The Honeydripper" (1908)

FONTE: 
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